Minha criança possui incomensuráveis solidões diante do mistério do
infinito. Ainda recua diante do violento, embora não o tema, e ainda se
infiltra em episódios de distração e inocência inexplicáveis num homem
com minha carga de vivências. Minha criança ainda gosta de abraço
caloroso, proteções misteriosas e de um modo de rezar que o adulto nunca
mais conseguiu tais a entrega e a total confiança no mistério e na
proteção de Deus.
Minha criança carrega o melhor de mim, é
portadora de meu modo triste de falar de coisas alegres e de algum susto
misterioso sempre que se lhe impõe alguma expectativa de enfermidade.
Minha criança é inteira, mansa, bondosa e linda. Eu a amo, preservo, e
dou boas gargalhadas quando a vejo infiltrar-se nas graves decisões de
algumas de minhas responsabilidades adultas. Ninguém a vê, salvo eu.
Ninguém a acaricia, salvo eu, que a estimo, procuro e admiro mais a cada
dia e com quem converso histórias infinitas, que somente a imaginação
pode conceber no universo maravilhoso da fabulação interior e solitária.
Diariamente passeio com minha criança e estou muito feliz por
cumprimentá-la, levar-lhe balas, nuvens, aquele cão da meninice, as
canções de minha mãe e os carinhos de meu pai, levar-lhe os presentes
que ganhava de meu padrinho e toda a enorme vontade de Ser que então
adivinhava para a minha vida. Vida que chegou, ameaça passar, e da qual
não me arrependo.
Minha criança adivinhou em seus sonhos o
adulto que eu queria ser. E traz alegria e esperanças à minha idade
atual. Hoje sou, há muito tempo, o adulto que sonhei ser. Talvez com
menos tensões, mas igualzinho em meu modo de amar a vida."
[[Artur da Távola]]
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